Blog de Flávio Romanto


ESTRÉIA DO BRASIL NA COPA

 

 

Bauru, 13 de junho de 2006

 

            Não gosto de futebol. Nunca gostei. Acho que tudo isso não serve para nada, exceto para encher os bolsos dos cartolas, de corporações capitalistas e alguns jogadores.

            No entanto, nada contra quem gosta. Democracia é isto, cada um gosta do que quiser. Partindo deste princípio, resolvi aproveitar o horário do jogo para tirar uma soneca, já que eu e mais uns gatos-pingados fomos gentilmente convidados a deixar a sala de leitura mais cedo. “É por causa do jogo”, disse a funcionária.

            Ocorre que fui acordado pela gritaria do quarteirão quando o Brasil fez o seu gol contra a Croácia. Despertado, sai à rua para observar o comportamento dos fanáticos por futebol em estréia do Brasil em copa do mundo. Pesquisa de campo, como diria o sociólogo.

            Mas grande foi minha surpresa ao me deparar com a rua toda vazia. Parecia um daqueles domingos sonolentos quando ninguém tem coragem de levantar do sofá após o almoço. Nada. Nenhum transeunte, nenhum carro. Nem cachorro havia. Uma legítima cidade fantasma de filme de bangue-bangue.

            Mas logo adiante, num bar próximo de casa, uma pequena e agitada multidão assistia à tv. Mais à frente, um outro grupo festejava num quintal. Provavelmente vizinhos. Copa do mundo é assim mesmo, aglutina as pessoas. Ninguém fica só, as pessoas sempre se juntam em grupos onde sempre cabe mais um. E ali, naquela tarde parada, eu era o único que me sentia só.

Segui até o teatro da universidade em que estudo onde cerca de 400 pessoas, entre alunos, professores e funcionários, estavam reunidas para contemplar a estréia da seleção. Entrei e encostei à parede. É realmente bem interessante para se observar. Cada lance arriscado, cada chute da seleção a gol suscitava um sentimento comum entre os presentes. Era como se houvesse uma comunicação telepática, como se todos sentissem o mesmo no mesmo segundo. A tão falada paixão do brasileiro pelo futebol se materializava ali, na minha frente.

Ao meu lado, pelo menos uns cinco técnicos denunciavam as falhas técnicas cometidas pelos jogadores. Outros apontavam quem devia ou não ir para o banco. Algumas mulheres gritavam “lindo” quando determinado jogador aparecia enquanto outras analisavam a partida seriamente. Uma freira angustiada sofria horrores e não parava na cadeira diante de um passe errado ou uma bola perdida para o adversário.   

No amplo aspecto daquele teatro - apesar das diferenças hierárquicas, pessoais, sociais, raciais e culturais - todos unidos numa só causa, num só objetivo. Integração difícil de ser imaginada em outra situação.

No mínimo, um fenômeno para ser analisado por psicólogos, sociólogos e antropólogos. 



Escrito por Flávio Romanto às 17h20
[ ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]
 
Histórico
12/08/2007 a 18/08/2007
17/06/2007 a 23/06/2007
10/06/2007 a 16/06/2007
25/03/2007 a 31/03/2007
11/03/2007 a 17/03/2007
04/03/2007 a 10/03/2007
18/02/2007 a 24/02/2007
14/01/2007 a 20/01/2007
07/01/2007 a 13/01/2007
31/12/2006 a 06/01/2007
26/11/2006 a 02/12/2006
19/11/2006 a 25/11/2006
29/10/2006 a 04/11/2006
22/10/2006 a 28/10/2006
08/10/2006 a 14/10/2006
01/10/2006 a 07/10/2006
17/09/2006 a 23/09/2006
10/09/2006 a 16/09/2006
03/09/2006 a 09/09/2006
27/08/2006 a 02/09/2006
20/08/2006 a 26/08/2006
13/08/2006 a 19/08/2006
06/08/2006 a 12/08/2006
30/07/2006 a 05/08/2006
23/07/2006 a 29/07/2006
16/07/2006 a 22/07/2006
09/07/2006 a 15/07/2006
02/07/2006 a 08/07/2006
25/06/2006 a 01/07/2006
18/06/2006 a 24/06/2006
11/06/2006 a 17/06/2006
04/06/2006 a 10/06/2006
14/05/2006 a 20/05/2006
30/04/2006 a 06/05/2006
16/04/2006 a 22/04/2006
09/04/2006 a 15/04/2006
26/03/2006 a 01/04/2006




Votação
Dê uma nota para
meu blog



Outros sites
 Mandurifest
 Indiesux