A revolta de Mary Lu
Naquele dia, Mary Lu acordou diferente. Sequer fez a posição típica do Yoga ou entoou um mantra para canalizar as boas vibrações e extirpar as ruins. Pulou da cama desconcentrada mesmo. Dirigiu-se ao aparelho de som e lançou à distância um Cd de Beethoven que há muito não saía do “contato”. Correu, semi-despida, ao quarto do irmão, que provavelmente ainda não havia chegado da balada, e sacou um disco do Led Zeppelin.
O horário, impróprio para tamanho devaneio, não a impediu de tocar uma guitarra invisível, bater a cabeça e pular como louca na cama. Nem mesmo atendeu ao telefonema de Ana Lia, que já a esperava no portão de sua casa para a caminhada matinal.
Desceu as escadas correndo, com as pantufas invertidas nos pés, e dirigiu-se à geladeira. Lá, botou abaixo todos os sucos naturais, as barras de cereais e as frutas frescas. Puxou o saco de lixo com uma das mãos e com a outra despachou os itens. Ligou na tomada a lancheira suja da noite anterior. Separou um hambúrguer. Um não, dois. Mais um ovo, e muita maionese e catchup. Nada de saladas ou pães de forma. Queria mesmo era entupir suas artérias com algo bem gorduroso e suculento. Queria comer, e comer com prazer. Chega de refeições que acabam antes que se possa sentir o sabor.
Para beber, refrigerante ao invés de vitaminas ou leites extraídos das mais estranhas plantas. Quem foi mesmo que inventou que leite de soja é bom para a saúde, questionou-se em silêncio.
O pensamento também lhe corria no sentido inverso. Por que é politicamente incorreto comer de vez em quando um boi? Afinal, foi a proteína da carne que fez com que o homo sapiens desenvolvesse sua capacidade simbólica, disse certa vez um professor de antropologia. Ainda bem que lembrava disso. Provavelmente foi uma das poucas vezes em não estava fazendo as unhas ou discutindo assunto de meninas em sala de aula.
De qualquer forma, viver só de naturebas também é maldade. Aliás, uma maldade ainda maior, pois as alfaces e as berinjelas não podem, ao menos, fugir de seus algozes durante a colheita.
Com o sanduba em mãos, sentou-se à TV. E comeu gostosamente. E bebeu abundantemente refrigerante, o que a fez recordar dos tempos de criança. Nada de diet ou light, que tem aquele gostinho ruim. Nessa altura, Ana Lia já adentrava ao cômodo, horrorizada com o que seus olhos viam.
Mary Lu continuou com os olhos pregados na telinha, sem responder aos incessantes apelos da amiga. E assim continuou, estática, durante todo o dia.
No outro dia, Mary Lu não acordou diferente.